sábado, 13 de março de 2010

3 Dias de Paz e Música

Dia desses assisti ao documentário “Woodstock – 3 Dias de Paz e Música”, de Michael Wadleigh. Isso devia ser vendido nas farmácias como remédio contra cara feia, ou ser ensinado nas escolas como uma lição de boa convivência entre humanos, sei lá. Como disse o tiozão que deu abrigo pra alguns jovens nos dias do festival: “(O Woodstock) Foi grande demais para o mundo. Nunca se viu algo assim. E, quando virem esse filme no cinema, verão algo fora do comum.” É o que chamam de ‘voz da sabedoria’.

A parada era pra ser restrita. Os organizadores venderam entradas e se empenharam naquele que devia ser um apenas um grande festival de música. Esperavam cerca de 60 mil pessoas por dia. Mas começou a aparecer gente de todo canto e sem parar. Carros, ônibus, motos, pessoas a pé... um verdadeiro exército da paz! Mas nem todos tinham entradas, e quem se importava? Se o problema era esse, que derrubem as cercas! E os organizadores anunciam: “A partir de agora, o Woodstock é gratuito para todos.” Fizeram um grande negócio, levaram um prejuízo milionário, mas seus semblantes já demonstravam o orgulho e a emoção de quem sabe que ajudou a escrever a história.

E tome gente chegando! Cerca de 1,5 milhão ao todo. A população da minha querida Recife, meus amigos! Todos com um mesmo sentimento, todos com um mesmo intuito: curtir a vibe! E que festa aqueles malucos fizeram! Faltava onde dormir, mas quem se importava? Faltava banheiro, mas quem se importava? Faltava comida e água, mas quem se importava? Caia uma tempestade, lama pra todo lado, mas quem se importava? Afinal, quem tá na chuva é pra se molhar!

As estradas do Estado de Nova York ficaram interditadas e o local foi considerado em ‘estado de calamidade’. Mas lá dentro ninguém queria saber disso, não enquanto houvesse música tocando no palco. E não é de qualquer música que estou falando. Em três dias passaram pelo palco do Woodstock figuras como: Jimi Hendrix, Santana, Joan Baez, Joe Cocker, The Woo, Country Joe and the Fish, Sly and the Family Stone, Janis Joplin, Richie Havens, e por aí vai… Esses todos aí podem ser conferidos, em magistrais apresentações, no filme. Eu, em minha humilde opinião, destaco as apresentações de Santana (com um instrumental de não deixar ninguém parado), The Woo, Cocker (com uma versão primorosa de With a Little Help From My Friends, dos Beatles), Sly (dando um toque especial de soul) e o mágico Jimi, que dispensa comentários.

Mas não era só de música que se tratava. A música serviu como um pretexto, grandioso e belíssimo pretexto, diga-se de passagem, para o encontro de toda daquela multidão. As pessoas reunidas em volta daquele palco buscavam dividir os sentimentos e valores que os guiavam, que, sabiam eles, eram a saída para aquela encruzilhada em que se encontrava o planeta. Estavam cansados da divisão do mundo em duas ideologias, cansados da Guerra do Vietnã, cansados do capitalismo, de suas mentiras, de sua manipulação, de sua alienação, do consumismo, cansados do ‘ter’ sobrepondo-se ao ‘ser’, do preconceito, das regras, da falta de respeito do ser humano para consigo mesmo e para com seu semelhante. E se em Hanoi os marines usavam fuzis e Napalm, em Bethel aqueles jovens também empunhavam com orgulho suas armas: paz, amor, comunhão, ajuda mútua, sinceridade, respeito, expansão da consciência e liberdade. Pois, como disse Richie Havens durante seu show, se tratava essencialmente de liberdade.

Centenas de milhares de jovens, drogas, nada de regras, nada de polícia... muitos tinham absoluta certeza de que isso não ia terminar bem, mas terminou. Nenhuma confusão e todos se divertindo pacificamente. Nem os caretões que moravam nas redondezas resistiram aquele bando de malucos. Com óbvias exceções, a população local aprovou e até ajudou (ou socorreu) ao evento. Como afirmou o chefe de polícia: “Esses jovens são cidadãos dos quais a América devia ter orgulho.”

Já ouvi que o ano de 1968 é a esquina do mundo. Bem, então eu acho que durante três dias essa esquina foi mais alegre e livre do que nunca. Se há um bom tempo os ideais celebrados no Woodstock tornaram-se utópicos, hoje em dia até o próprio Woodstock soa meio utópico em plena a nossa famigerada pós-modernidade. Quem sabe um dia a história nos proporcione outra dose (ou trago, como você preferir)?

Long live rock 'n' roll!

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