quinta-feira, 27 de maio de 2010

O segredo de Lost

Embarcamos em Sydney junto com todos os outros passageiros do Oceanic 185 rumo à Los Angeles, mesmo sabendo que nosso destino era outro. Embarcamos só em busca de mais uma diversão, de um passatempo, de aventuras, de mistérios a serem desvendados, de adrenalina, mas aquela não era mais uma viagem qualquer de férias. Uns entraram mais afoitos, ansiosos pela chegada e pelo que lhes aguardava – fosse o que fosse -, outros mais desconfiados, alguns outros um pouco tensos – surpresas (ou altura) não lhes agrada -, ainda tinham os despreocupados, que só queriam curtir a viagem e ver no que dava, tinham também os chatos, os confiantes, enfim, tudo que geralmente se encontra num voo habitual. Mas no momento em que aquele médico de nome bíblico abriu os olhos em plena uma ilha “deserta” no meio do Pacífico ficou claro que havia algo maior naquilo tudo, maior e mais denso do que podia imaginar-se, talvez não para maioria, assim como para o Dr. Jack, mas isso era só uma questão de tempo. Estava começando ali, diante dos nossos olhos, o maior feito televisivo já criado.

A partir daquele momento, toda aquela ilha fantástica, seus personagens e mistérios passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de pessoas mundo afora, até das que nem curtiam toda aquela baboseira(!). No intervalo da aula, no cafezinho da empresa, na mesa do bar, na saída da igreja, na recepção do dentista, entre um papo sobre futebol e sobre o futuro sócio-político-econômico do Brasil no mundo pós-moderno, sempre surgia uma história sobre o tal monstro-da-fumaça, sobre “os outros”, sobre o urso-polar, e mais e mais teorias, atormentando a vida dos não-fãs durante longos seis anos.

Mas qual o segredo por trás de Lost? O que fez de mais uma série enlatada americana um sucesso tão retumbante? Um dos motivos foi a, já comentada no post anterior, esperteza da galera em perceber os rumos que se desenhavam no mundo virtual e, juntamente com os fãs, criar novas formas de interação, numa bela estratégia de marketing. Mas só isso não seria capaz de tonar a série em uma sensação. A parada tinha que ser boa mesmo! E é aí que entram em cena J. J. Abrams, Damon Lindelof e Carlton Cuse, os homens por trás de Lost.

Donos de uma cabecinha privilegiada, essas três figuras criaram a tal fórmula mágica para o sucesso da série. Mais do que saberem escrever muito bem, esse caras sabem o que o público quer ver - mesmo que nem o próprio público saiba direito. Além disso, por incrível que pareça, eles tinham tudo pronto (pelo menos na cabeça) desde o início. Todas as aparentes loucuras, todos os diversos caminhos que a série tomou, todas as idas e vindas, tudo tinha um sentido desde o começo e, no final ficou claro, ele juntaram todas as pontas e nos convenceram que não era na base do improviso não, merecendo elogios até de George Lucas (Star Wars), que confessou não ter essa mesma capacidade.

Eu podia perder meu tempo aqui falando das teorias da comunicação, da semiótica, e todo papo furado acadêmico que está implícito na série, mas eu nem ia desenrolar nem valeria a pena, então vamos ao que mais interessa. Um dos trunfos de Lost está nas perguntas. São as perguntas que movem o homem, e não as respostas. Foi assim com os habitantes da ilha e conosco, espectadores, todos movidos pelas mesmas perguntas, vindos do mesmo avião e agora todos no mesmo barco. Com essa tática a série satisfez o cara que senta na frente da TV, assiste um episódio e vai embora satisfeito e fez a festa de quem procurava algo mais, porque, pro verdadeiro aficionado por Lost, assistir um episódio é só o primeiro passo, depois vem a odisséia em busca de respostas, e aí haja Wikipedia, livro, blog, fórum, podcast... e tempo!

Pesquisa vai, teoria vem, e lá estávamos nós metidos numa verdadeira suruba de conhecimentos, dentre os quais: física - teorias de Michael Faraday (através de Daniel Faraday), teorias de Stephen Hawking e seu livro Uma breve História do Tempo (através de Heloise Hawking), teorias da física moderna, viagens no tempo, buraco de minhoca, eletromagnetismo; filosofia – o nome de diversos personagens ligados explicitamente à grandes pensadores (do quilate de John Locke, Edmund Burk, Jean-Jaques Russeau, David Hume, Mikhail Bakunin, Thomas Carlyle, Anthony Cooper, Jeremy Bentham, Edward Said), personagens esses que traziam consigo as teorias dos seus xarás, além do aparecimento de outras teorias como as de Sartre e René Descartes; religião - budismo, cristianismo, taoísmo, islamismo, hinduísmo, espiritismo, discordianismo, shamanismo, cultos aborígenes, mitogias egípcia, suméria e grega; temas literários - Alice no país das maravilhas, O Mágico de Oz, The Watchmen, A Wrinkle in Time, Jules Verner; psicologia; sociologia; além de termos um tanto novos, como flash-back, flash-forward e flash-sideway. Mistura digna de deixar com inveja qualquer tropicalista e deixar regozijante todo nerd da face da Terra, que viu gente como eu perdida e fascinada por esse mundo digno da melhor ficção científica.

Apesar de toda essa perspicaz doidera com a qual os cabeçudos senhores dessa série nos confrontaram, a grande sacada de Lost está no fato de que o seu foco, o seu núcleo, seu propósito, está nas pessoas, algo tão simples e tão profundo: o ser humano e tudo que lhe envolve. Os embates entre bem x mal, preto x branco, razão x fé, livre arbítrio x destino, tudo com o que nos deparamos durante a vida, que temos em nosso interior, que procuramos separar, sem se dar conta que um lado não existe sem o outro, ambos se completam, ambos são necessários e eternos. Não foi difícil se identificar com as aflições das personagens, suas angústias, decepções, erros, a busca pela felicidade, pela mudança, pelo “renascimento” como homem, premissa fundamental para ser o escolhido. Nos vimos no ceticismo de Jack, na fé cega de Locke, na malandragem de Sawer, na coragem de Sayid, na indecisão de Kate, no carisma do ‘dude’ Hurley, na lealdade de Richard, nas doideiras de Charlie, na determinação de Ben, na busca de Faraday, no amor de Sun e Jin, no equivalente amor - sentimento também fundamental para a trama - do ‘brotha’ Desmond e Penny (como não ficar atônito e se emocionar com o ep. ‘A constante’?), na certeza de Jacob e de seu irmão... todos eles eram um pouco de nós mesmos, erro após erro em busca do acerto.

Lost começou com o maior naipe de história de Julio Verner ou Indiana Jones, depois parecia que ia virar algo do tipo Star Wars ou Donnie Darko, mas acabou no melhor estilo tragédia grega ou Willian Shakespeare, realmente não dava pra ser melhor.

Na série a ilha ‘convocou’ os escolhidos para dar-lhes uma nova chance, para se confrontarem consigo mesmos (por isso olhar o próprio reflexo era um recurso muito repetido), se conhecerem e crescerem como pessoas, atingindo a tão buscada felicidade. Você aí, não precisa ir para uma ilha no meio do Pacífico pra tentar o mesmo.

Abra os olhos!

Nota: Esse texto foi feito antes do último episódio.



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